Nossa vida se baseia num dogma.
A fim de recompensa-lo por ter desempenhado as tarefas descritas em sua carteira de trabalho, seu superior te entrega um papel, muito bem impresso e confeccionado, com a inscrição do número “50”. Segundo ele, o esvaecimento de suas horas e de sua paciência diária (e é claro, sua capacidade de engolir a seco toda a falta de polidez de seu nobre chefe) são totalmente recompensados no ato da entrega desse papel.
Cabe a você acreditar - ou não - no poder do papelzinho.
E ainda ousam criticar o misticismo medieval…

Aonde está escrito que devemos ser simpáticos com os pedestres lentos e desnorteados responsáveis pela existência dos X minutos de tolerância de atraso? Qual a razão pela qual o senso comum nos incita a fingir que não temos a capacidade de discernir um paquiderme que tem como hobby difamar-nos pelas costas? Quem foi o responsável por definir que se deve “aceitar” tacitamente a execução de atos denotavelmente descontentáveis, a fim de evitar conflitos?
Não se sabe exatamente em que decreto essa determinação está expressa, nem ao menos se sua abrangência é estadual, federal (ou, quem sabe, algum tipo de exigência ecumenista de âmbito universal). Temos diante de nós um enorme número de preceitos morais, com o objetivo de definir limitações maniqueístas dentre as pessoas - sejam transeuntes, colegas de trabalho, cidadãos, familiares ou interpessoalidades de quaisquer naturezas. Entretanto, quando alguém (em alguns casos) opta por não transgredir essa fronteira invisível a olho nu - mantendo-se firme, apesar de tudo, aos tão nobres princípios apolíneos - pode ser julgado por certos espectadores como uma demonstração de ingenuidade e fraqueza.
Taí, uma definição contemporânea para a palavra “mártir”. O que, pelo menos na minha língua, é sinônimo de estupidez.
- Diga, conhece um inseto chamado “efêmera”? A efêmera morre um ou dois dias após dar à luz. Seu corpo é vazio. Ao invés de estômago ou intestino, seu interior é apenas preenchido por ovos. É uma criatura que nasce apenas visando a procriação.
(…)
- Humanos não são muito diferentes.
Your time is running out, darling. Faltam 648 dias para o fim do mundo.
Hei de assumir o quão lisonjeada me sinto por isso. Não só sobrevivi às tsunamis quilométricas e chuvas de meteoro da grande virada de milênios (1999/2000), como serei cordialmente agraciada com a oportunidade de presenciar outro apocalipse. O que é um tanto quanto discutível: nesse meio tempo, Toninho do Diabo anunciou um de seus sonhos na TV. Jesus, Deus (com seus sedosos e esvoaçantes cabelos brancos) e a Virgem Maria resolveram se reunir com ele, que - por um acaso - representava o Diabo, objetivando discutir o fim da humanidade e sua Terra Mater. Sem contar com as previsões da Mãe Dináh, cujos poderes espirituais já assombraram um sem número de pessoas com idade inferior a 7 anos.
Em todo caso, tais previsões não foram detentoras de um nível profético tolerável, ao menos não ao ponto de causar alarde e especulações. Já o simpático Nostradamus, que possuía tudo o que lhes faltava, resolveu lançar a simples frase: “No sétimo mês de 1999, do céu virá o grande rei do terror”. Pois é. O respeitável moço do século XVI havia profetizado. Quem ousaria discordar? O fato é que o alvoroço foi causado pelo combo do MALIGNO, TERRÍVEL, TEMÍVEL e ATROZ Bug do Milênio com a conhecida citação bíblica: “Há mil chegará. De 2000 não passará”.
E o ano de 1999 chegou, de 2000 passou… Mas é claro - ninguém aguentaria esperar por outra virada de milênios para entrar em pânico. Portanto, as mais divergentes vertentes se auto-atribularam com a árdua tarefa de cavar (pseudo) indícios, incrementa-los e aumenta-los (a doutrina de Nelson Rubens, do “aumento, mas não invento”), “escolher um apocalipse” de acordo com seu bel-prazer, e finalmente, propagar toda essa “informação” pelo mundo afora. Mas fica a questão: o que o dia 21 de dezembro de 2012 reserva para nós… Inocentes humanos, langorosos animaizinhos, lânguidas cianofíceas e cândidas tênias? Para garantir que todos vocês, abençoados leitores, estejam à par do que pode acontecer, resolvi elencar as possibilidades de fim de mundo mais votadas pelos internautas. Confiram à seguir:
Fim do calendário Maia: Segundo o calendário Maia, o dia 21/12/2012 corresponde ao final de um ciclo (denominado b’a’ktun) de 5125 anos. Esse dia é tido como o fim do 13º b’a’ktun, e a contagem longa desse calendário é finalizada apenas no 20º b’a’ktun. Portanto, se você tem um calendário mesoamericano pendurado na sua geladeira, lembre-se de arrancar a 13ª folhinha.
Tempestade solar: As variações na atividade do Sol fizeram com que fosse possível estabelecer o chamado “ciclo solar”. Através dele, é possível efetuar uma previsão aproximada dos períodos de alta (caracterizado pela propensão a ocorrência de explosões solares) e baixa atividade. Grosso modo, é definido que o tal ciclo possui a duração de 11 anos - com a margem de erro de até 2. Esse período de baixa atividade solar está se tornando um motivo de preocupação para diversos pesquisadores, pelo fato dos níveis decaírem gradativamente. Tal preocupação chegou ao ponto de considerarem um novo mínimo de Maunder, que acarretou numa pequena Era do Gelo no século XVII, onde as épocas de baixa atividade atingiram um período estimado de 50 anos. E, tá… Peraí. Mas não eram 11 anos? Peraí. Não estão falando na TV que em 2012 presenciaremos explosões solares de proporções incrivelmente maiores que as das bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki?
Nibiru: Essa é pra você que se entristeceu ao descobrir que as músicas da Xuxa tinham como intuito, não avisar a população e as autoridades sobre o desaparecimento dos patinhos, mas propagar a mensagem maligna do dimonho; é pra você, que se sentiu um bobo ao perceber que o Paul McCartney é um sósia malvado, ao ser avisado pelas capas do Abbey Road e do Sgt. Pepper’s; pra você, que se decepcionou com as manipulações dos comerciais da MTV e com os peitinhos nas obras de Walt Disney. Deal with it: o Google Sky e o Microsoft Telescope também estão te enganando. Existe uma área indisponível para visualização, localizada ao sul da constelação de Orion - que é, por um acaso, a localização exata do planeta Nibiru. Tal lenda é baseada primariamente na mitologia suméria, e além de profetizar uma colisão de Nibiru com a Terra em 2012, estende-se também a explicar a origem de nosso planeta e do “cinturão dos asteróides” (através de outras colisões, com outros planetas hipotéticos). A história completa pode ser acessada no site http://yowusa.com (powered by Tio Barnabé).
Era de Ouro: Segundo a crença de inúmeros religiosos e fiéis, nosso planeta passa por uma era de escuridão. Dizem que a ausência de valores morais, a violência e insensatez dos homens ainda são atributos a serem superados - chegando a ser considerados um motivo de “atraso” pra evolução da humanidade. Esse período ascensional pode ser alcançado através de mudanças bruscas ou graduais, praticamente insensíveis. Essa transformação, com data marcada para 2012, pode se assemelhar ao crescimento de uma planta, sendo tido como o “amadurecimento da humanidade como um todo”. Convenhamos, that’s cute. E eu nem sou religiosa ou fiel. Mas ainda temos que lidar com os religiosos alternativos escrotos que querem acabar com a minha vida e enfiar ETs no meio dessa história. Já essa teoria - que deve ter sido criada por simpatizantes cósmicos otimistas demais para acreditarem em Nibiru - baseia-se na idéia de que essa tal “transformação” ocorrerá através de uma intervenção extraterrestre… Com alienígenas bonzinhos, no caso, não como aqueles malvados que vimos em Signs/Skyline/Fire in the Sky/Fourth Kind/Night Skies/etc.
Enfim… por essas e outras, o tal ano de 2012 conquistou a criançada. A cada tragédia que acontece - como as habituais chuvas de verão matando um sem número de pessoas que moravam (conscientemente) em áreas de risco, ou terremotos seguidos de tsunamis em países localizados acima de três placas tectônicas - já é motivo suficiente pra gritarem aos quatro ventos que “o planeta Terra está se tornando um antro de catástrofes, e que tudo isso é um aviso prévio do que está por vir”… É, ok. A esses, deixo meu aviso: tentem não viver como se esses fossem seus últimos meses de vida… Se vocês pegarem clamídia, é bem provável que tenham que conviver com ela.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentra da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas… Esta é a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
We’re living in repetition
Content in the same old shtick again
Now the routine’s turning to contention
Like a production line going over and over and over…
Roller coaster
Now I cannot speak,
I lost my voice I’m speechless and redundant
‘Cause I love you’s not enough
I’m lost for words.
Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, nalgum lugar…”. Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isto não tem importância?
-Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante.
-Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… - Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
-Os homens esqueceram essa verdade - Disse a raposa. - Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…
-Eu sou responsável pela minha rosa… - Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.
O monge viu uma jovem lindíssima, filha, talvez, de algum dos lavradores da região. A jovem estava apanhando algumas ervas nos campos. Assim que o monge a viu, sentiu-se acometido pelo interesse carnal. Por esta razão, acercou-se mais da jovem e travou conversa com ela. E tanto saltou de uma palavra a outra, que terminou por firmar um acordo com ela. Por esse acordo firmado, levou-a à sua cela, sem que ninguém o percebesse. Instigado por um desejo excessivo, brincou com ela, de um modo menos cauteloso do que seria conveniente.
Sucedeu que o abade do mosteiro, deixando a sua cama, onde dormira, e passando, sem fazer ruído, em frente à sala do tal monge, escutou a barulheira que ele e a moça faziam. Para identificar mais precisamente as vozes o abade chegou bem próximo à porta da cela. Notou sem nenhuma dúvida, que havia uma mulher lá dentro. Sentiu-se tentado a ordenar que se abrisse a porta. Entretanto, pouco depois, julgou que seria mais conveniente agir de outro modo, em semelhante caso. Retornou ao seu quarto e aguardou que o monge deixasse a cela.
Apesar de ocupado com a jovem, e ainda que gozasse enorme prazer, o monge não deixou de desconfiar de algo; a certa altura, tivera a impressão de ouvir um arrastar de pés, pela ala dos quartos de dormir. Por essa razão, olhou através de pequeno orifício e viu que o abade ali estava, escutando. Entendeu, perfeitamente, que o abade devia saber que a jovem estava em sua companhia. Reconhecendo que, por essa razão, seria punido com grave castigo, mostrou-se profundamente aborrecido. Contudo, sem deixar que a moça percebesse a sua contrariedade, buscou em sua mente algo que o auxiliasse a escapulir daquela enrascada. Finalmente, ocorreu-lhe uma artimanha, que calhava bem a esse fim. Daí, fingindo já ter ficado o suficiente em companhia da jovem, disse-lhe:
– Quero achar uma maneira de você sair daqui de dentro sem que a vejam; assim sendo, fique aqui mesmo, calmamente, até que eu regresse.
Deixou a cela e trancou a porta com a chave. Encaminhou-se diretamente para a cela do abade, dando-lhe a chave, conforme a tradição, quando se ausentava do mosteiro. Disse, então, com expressão tranqüila e amiga:
– Senhor abade, não pude, esta manhã, ordenar que trouxessem ao mosteiro toda a lenha que pude arranjar; por esta razão, com sua permissão, desejo ir ao bosque, para mandar que a tragam.
O abade, desejando informar-se por completo com relação à falta praticada pelo monge, ficou satisfeito com o seu modo de agir. Recebeu a chave e deu ao monge permissão para ir ao bosque. Ficou convencido, como se percebe, de que o monge nada sabia do fato de ele, abade, ter ficado escutando à porta de sua própria cela.
Bastou o monge se retirar, o abade procurou resolver o que seria mais certo fazer, primeiramente: abrir-lhe a cela, na presença de todos os monges do mosteiro, para que ninguém pudesse apresentar razões de queixa contra ele, no momento em que pela sua autoridade abacial castigasse o monge pecador, ou escutar, primeiro, da jovem mesma, a sós, como se passara o caso. Cogitando, entretanto, que a jovem pudesse ser esposa ou filha de algum homem que ele não gostaria de fazer passar por essa vergonha, decidiu que o melhor seria tratar, primeiramente, de saber quem era aquela moça para depois resolver o que faria. Silenciosamente, dirigiu-se para a cela do monge; abriu a porta; entrou e fechou-a por dentro, naturalmente. Vendo entrar o abade, a moça ficou desconcertada. Cheia de vergonha e de medo, pôs-se a chorar. O senhor abade olhou-a por muito tempo; vendo-a tão bela e sensual, sentiu inesperadamente, ainda que um tanto idoso, os apelos da carne. Eram apelos não menos ardentes do que aqueles que sentira o jovem monge. E a si mesmo começou a dizer:
– Enfim, que razão há para que eu deixe de desfrutar um prazer, quando posso desfrutá-lo, se, por outro lado, os aborrecimentos e os tédios estão sempre preparados para que eu os prove, queira ou não? Aí está uma bela moça, sem que nenhuma pessoa, no mundo, saiba disso. Se posso fazer com que me proporcione os prazeres pelos quais anseio, não existe nenhuma razão para que eu não a induza. Quem é que virá a saber disto? Ninguém nunca o saberá! Pecado oculto é pecado meio perdoado. Um acaso destes quiçá jamais venha a se verificar de novo. Julgo ser conduta acertada colher o bem que Deus Nosso Senhor nos envia.
Assim refletindo, e tendo modificado inteiramente o propósito pelo qual fora até ali, acercou-se mais da moça. Com voz melíflua, pôs-se a confortá-la e a pedir, com instância, que não chorasse. Palavra puxa palavra, até que ele chegou ao ponto de poder evidenciar à moça o seu desejo. A jovem, que não era construída de ferro nem de diamante, atendeu, muito cômoda e amavelmente aos prazeres do abade. O padre abraçou-a, beijou-a muitas vezes, seguidamente, atirou-se com ela na cama do monge. Seja por enorme consideração, ou ao venerável peso de sua própria dignidade, ou pela idade tenra da jovem – seja, então por recear causar-lhe mal, pelo seu excessivo peso –, o abade não se pôs sobre o peito da moça. Antes, colocou-a sobre o seu próprio peito. E, durante muito tempo, entreteve-se com ela.
O monge, que havia fingido ir ao bosque, mas que, na verdade, escondera-se na ala dos dormitórios, viu quando o abade entrou em sua cela. Assim, completamente tranqüilo, compreendeu que seu plano dera resultado, ao perceber que o abade trancara a porta por dentro. Deixando o seu esconderijo, silenciosamente foi até o orifício da fechadura, através do qual viu e ouviu o que o abade fez e disse.
Quando pareceu ao abade que já se demorara o bastante em companhia da jovem, deixou-a trancada na cela, e retornou ao seu quarto. Passado algum tempo, ouvindo que o monge chegava, e pensando que ele regressasse do bosque, decidiu censurá-lo e mandar que o prendessem no cárcere; assim procedendo, pretendia ficar sozinho na posse da presa conquistada. Ordenou, portanto, que o monge viesse à sua presença. Com o rosto severo e com graves palavras, censurou-o, mandando que fosse conduzido ao cárcere. O monge, sem nenhuma hesitação, retrucou:
– Senhor abade, não estou, ainda, há tempo bastante na Ordem de São Bento para conhecer todas as singularidades de sua disciplina. O senhor não me mostrara ainda que os monges precisam fazer-se mortificar pelas mulheres, assim como devem fazê-lo com jejuns e vigílias; agora, contudo, que o senhor acaba de mo demonstrar, prometo-lhe, se me conceder o perdão por esta vez, que nunca mais pecarei por esta forma; ao contrário, procederei sempre como vi o senhor fazer.
O abade, como homem astuto que era, reconheceu logo que o monge não só conseguira saber a seu respeito muito além do que o suposto, mas ainda ver quanto ele fizera. Por esta razão, sentiu remorsos pela sua própria culpa; e ficou vexado de aplicar ao monge o castigo que ele, tanto quanto o seu subordinado, merecera. Deu-lhe o perdão, mas impôs-lhe silêncio sobre quanto vira. Depois, levaram ambos a moça para fora do mosteiro; e, mais tarde, como é fácil de se presumir, inúmeras vezes a fizeram retornar ali.